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sexta-feira, 6 de maio de 2016

A Alta-Costura mora no sertão

 O tempo, definitivamente, é coisa relativa no sertão. As mãos das bordadeiras fazem a gente, na nossa ousadia urbana, se perder na tentativa de acompanhar o bilro indo de um lado para o outro, quase como um balé. E até bem que parece ser um clássico de repertório não fosse o batuque acelerado da madeirinha que faz a renda de bilro nascer, lentamente, podendo levar até meses pra concluir uma peça.

Eu pude acompanhar esse espetáculo da cochia, quase como uma menina curiosa que fica repetindo os passos meio desajeitada, quase sempre fora do ritmo. E foi exatamente assim: embarquei com a Coutto Orchestra, banda sergipana ganhadora do Prêmio Natura Musical, que na construção do seu novo disco, o Voga (2016), levou uma equipe de tripulantes para um verdadeiro mergulho nas águas do Rio São Francisco.

Povoado de Entremontes, em Piranhas-AL, a parte do rio que mais que encantou... dá pra perceber o motivo?

Detalhes do ateliê Tenda de Mané de Santo

Eu embarquei junto a eles em busca de referências e inspirações para a construção do novo figurino, um desafio que levei na mala junto ao meu companheiro criativo João Hungria. Foram mais de 14 dias morando num barco, tomando banho de rio e lavando as roupas com sabão de coco. Dormíamos na beira de um povoado e amanhecíamos em outro. Passamos por mais de 20 localidades sempre com a sede de encontrar um novo personagem, uma nova história.

E assim acontecia, como se os atos fossem escritos ali mesmo. Seu Bossa, nosso comandante-querido-vô dava o sinal de que estávamos partindo, assim que acabávamos de comer o “quarenta”, uma receita secreta de cucuz que nos alimentava praticamente nas três refeições do dia. E a descoberta acontecia deliciosamente: o sertão tem ouro todos os (en) cantos. Ouro na quantidade de borboletas coloridas que encontrava pelo caminho e que resistiam, tão frágeis, naquele calor de torrar o cocoruco de uma branquela curiosa. Ouro nas rezadeiras que benzem com conselhos que revelam uma maturidade tão natural quanto o cheiro, o sol, as cores daqueles lugares. No sertão tudo se encaixa no seu tempo. E ai de quem tentar entender... ali (simples)mente se vive, se passa, se toca, se ri.   

Eu e João ajustando os moldes do colete  

Apresentando as ideias e croquis para as bordadeiras de Entremontes (Piranhas-AL)

Nas andanças tive uma pontinha de esperança: não morre aquilo que se vive num novo olhar. A cada atelier que entrei, um mundaréu de referências me tomava os olhos e dois personagens sempre em cena: o mestre e o aprendiz. Presenciar aquilo funcionava quase como um respiro sussurrando no meu ouvido: “Ei, essa memória vai continuar sempre viva, fique tranquila.” E como um deleite descobri a Tenda de Mané de Santo, em Porto da Folha -SE, onde se faz arte em couro. Seu Manoel (o mestre) e Kiko (o aprendiz). As ferramentas, agulhas, couro de bode, fita e a paciência de furo a furo construir um gibão, tão detalhado que mais parece ter saído de um atelier de Alta-Costura.  

E não é? Segundo a jornalista Camila Yahn, Alta-Costura é o que podemos chamar de moda exclusiva, feita à mão, com materiais de altíssima qualidade. O termo tem sindicato e é cheio de regras bem específicas como, por exemplo, empregar um staff em tempo integral de 15 pessoas.

 No Centro de Produção na Trilha do Cangaço, em Poço Redondo-SE, não encontrei uma equipe de 15 artesãs trabalhando na peça da nova coleção da Chanel, mas encontrei três mulheres, em estágios diferentes da vida, que ficam sentadas por horas construindo cuidadosamente uma libélula rendada em bilro. Eu sai de lá com a certeza de que o sertão é um grande balé clássico cheio de detalhes em seus figurinos inspirados na vida real de um povo que tem seu próprio tempo. Um espetáculo que estreia a cada entardecer, com um céu que presenteia o espectador e faz se perder no deleite das cores de dois arco-íris simultâneos num mesmo céu e uma dúzia de borboletas à beira rio. O Velho Chico assiste cansado, mas a memória do sertão estará sempre viva por cada curioso que lhe visite.  

* texto escrito por mim para a edição 26 da revista Ícone, um agradecimento especial ao querido Márcio Lyncoln pela confiança e carinho. 
Fotos: Melissa Warwick 

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