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domingo, 29 de janeiro de 2017

Sobre viajar sozinha e navegar num Rio que me tirou do chão

Eu te preciso confessar que tive a melhor viagem da minha vida. Não, não fui pra Ásia visitar um guru (que conheci lendo Comer, Rezar e Amar) ou tomar um sorvete cremosamente italiano, muito menos fui à Paris como sempre sonhei desde menina. Aliás, como são engraçados os nossos sonhos... Rondam nossas cabecinhas ansiosas à procura de um novo desejo a toda hora, toda hora. A minha, coitada, borbulha diariamente, que se deixo à solta, dá até falta de ar de tanto sonhar.
Olha, mas sem fugir do assunto... É que eu fui pro Rio de Janeiro. Eu fui sozinha pro Rio, eu precisava ir sozinha.
                Eu preciso te dizer também que, antes de qualquer coisa, voltei a me reconhecer como a personagem do filme que tava na prateleira mais escondida da locadora há algum tempo. E que delícia se sentir inteira sabendo que a gente é a nossa melhor personagem, nossa melhor companhia... Acredite em mim, viajar sozinha é a coisa mais forte e libertadora que pode existir nessa rápida e doida existência humana.
                Eu tô falando de todas as ruas que andei sempre cheias de edifícios antigos, das amendoeiras gigantes que faziam sombra embaixo do sol que ardia na minha pele branquelinha e que (desculpe, mãe) eu fazia questão de queimar. É como se eu quisesse tatuar o Rio pra sempre, não sei se você me entende. Eu tô falando do sotaque malemolente e que dá vontade até de dançar de tão alta e gostosa que é a música. Tô falando da água gelada e salgada, dos livros nas prateleiras dos sebos e livrarias de rua, da areia grossa e até da falta de medo, que ó... dá até medo de pensar.



  

                Tô falando da Zélia, que conheci quando entrei no metrô e perguntei sobre qual estação descia se eu fosse ao Leblon. Mal sabia eu que ela, com seus 75 anos e lindos cabelos brancos, também estava andando sem rumo com apenas um objetivo: descer em qualquer estação para conhecer a cidade. Resultado do conto: uma manhã inteira passeando nas ruas da Barra, com direito à água de coco (sete reais, socorro) na beira da praia falando sobre a vida e sobre a importância de ler todas as placas possíveis nas esquinas, que trazem o significado e origem dos nomes das ruas.
Depois disso, voltamos o caminho, com toda a calma que a idade e a experiência trouxe pra ela, sentamos juntas no metrô e nos despedimos com um abraço de até logo. Assim foi pra mim, num Rio cheio de entrelinhas, nos despedimos com um desejo de continuar a conversa que ficou por terminar, de saber que não sabíamos quando e se ainda nos cruzaríamos na vida de novo. E o até logo traz, no meio do caminho, a certeza de que sim: a gente é uma nota só nesse mundão de Bossa Nova.
                É, a gente é sozinho mesmo. Só, só mesmo, de dar dó de tanta solidão. Por mais que a gente ame todo mundo, tenha uma família linda, o amor da vida ou amigos daqueles que aparecem quando você menos espera, a solidão é fato. E a solidão é bonita no seu tom mais agridoce. A solidão me fez companhia nas andanças pelo Flamengo, por Botafogo e até no pé no morro da Urca, quando não tinha mais calo pra abrir nos pés. Exatamente como a sensação de tirar as sapatilhas de ponta depois de um ensaio. A gente sente um prazer que não se sabe explicar. E, sim, uma das coisas que aprendi nessa viagem: a gente não precisa explicar tudo.



{...}


                Dentre outras muitas coisas, quero compartilhar aqui uma lista do que você definitivamente precisa fazer no Rio (de acordo com o que eu fiz, que não fui muita coisa diante do que parece ter sido pra mim):

1.       Visite o Museu do Amanhã. Compre o ingresso (R$20, a inteira) antes, pelo site, e vá com disposição para esperar nas filas enormes. Se o seu nível de sensibilidade for alto, algum cisco vai cair no seu olho quando assistir logo a primeira parte da exposição, que fica no segundo andar (tente uma vaga para assistir deitado nos almofadões). Se você gosta de Arquitetura, é quase uma obrigação conhecer essa obra de Calatrava por dentro e por fora.  Ps.: dia de terça é de graça, mas não faça isso se ainda quiser conhecer outras coisas no mesmo dia e ah, chegue de VLT rapidinho descendo na “Parada dos Museus”.






2.       Vá à praia (Leblon, Barra ou Ipanema) tome uma água de coco (socorro, por R$7!), compre uma canga redonda (não comprei, me arrependi, mas vi umas lindas passando) e fique lá vendo o tempo passar. Leve um livro ou coloque os fones com uma playlist criada antecipadamente com todos os hits da Bossa Nova, quanto mais clichê, melhor. Ah, se for sozinha, pare exatamente ao lado de um dos chuveiros, você vai poder se refrescar e ter a certeza de que ninguém vai levar sua bolsa, rs.
3.       Vá ao cinema. Nesses cinemas “de rua” e assista a um filme independente ou qualquer um que te agrade, compre pipoca e refrigerante. Eu assisti La La Land no cinema da Net, em Botafogo, em frente à Livraria da Travessa. Foi o filme perfeito pro meu momento.
4.        Fuja de shoppings. Shopping tem em todo canto e são quase sempre as mesmas coisas, a não ser que você encontre uma bela de uma Forever 21 em promoção, uma farmácia (amo farmácia) ou uma TokStok. No mais, esqueça shopping.
5.       Vá ao Centro e visite o CRAB (Praça Tiradentes), lá tem uma exposição chamada Territórios que você precisa conhecer. Na mesma praça você encontra uma pequena lojinha “ching-ling” de chapéus por R$15 contos em média, além de todas as lojinhas de trecos espalhadas pelo centrão. Nesse caso, coloque a bolsa pra frente e ande sempre grudada em alguém que lhe pareça minimamente confiável (sem fazê-lo achar que você é maluca e está o perseguindo, por favor, você vá revezando sempre pra sua própria segurança).



6.       Se permita ir ao Astor, tradicional bar em Ipanema. Vale experimentar os famosos drinks e pedir uma porção de qualquer coisa (os pasteizinhos sortidos são uma boa pedida), porque o que mais vale é o atendimento incrível, a música, a vista, a companhia, claro, e ficar observando os gringos passarem falando suas mais diversas línguas.

7.       Faça as coisas que não consegui fazer dessa vez (sim, porque terão outras tantas vezes): vá ao teatro, faça uma trilha, ande de bicicleta na Lagoa Rodrigo de Freitas, vá à Feirinha Hippie de Ipanema (fui da outra vez) e vá ao Parque Lage, fiquei na vontade disso tudo, o que me faz já pensar em quando vou conseguir comprar a próxima passagem. 


5 comentários:

  1. Essa ê uma grande certeza: somos só. Demora um pouquinho pra entender mas uma hora a gente descobre que a melhor casinha somos nós mesmo (#emsilencio)

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    1. Exatamente, July! E pode ser linda, essa "solidão" :)

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  2. Ai Bele, que coisa mais linda! Também aprecio muito esses momentos sozinha, ajudam tanto à gente se conhecer! É aquilo de estar sozinha, e não ser solitária. Ser autossuficiente <3

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    1. Isso, Lu! É uma delícia, além de tudo... a gente realmente descobre que pode ser nossa melhor companhia :)

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  3. Menina corajosa da poxaaaaa! Arrasou, Belinha!
    Ah, não tem feirinha mais maravilhosa que a hippie, eu surtei!
    Beijo! Kizzinha.

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