Perdoe as suas próprias expectativas

Eu tô em casa porque hoje pedi liberação do trabalho pra tentar repousar e curar de vez uma doença (só eu odeio ficar assim? Não, né?) que tá namorando comigo desde sexta passada, que varia entre garganta inflamada, febre e espirros quase sempre repetidos em duas ou três vezes seguidas. Uma coisa chata, grudenta, que piora quando chega à noite, logo naquela melhor (ou pior) hora: quando só estamos eu e meu travesseiro juntinhos. E a luz do abajour, que é lindo, mas tá quebrado há meses e se mantém em pé iluminando o quarto, que nem eu.  

Essa hora, eu sei, talvez seja a mais difícil pra você também. É quando a gente tá sozinho com nossas frustações de não ter feito metade da lista de tarefas do dia sem dar o tão glorioso check ao final da linha. É a hora que a gente lembra que o que a gente perdoou ainda não passou da garganta e que sim, perdão existe, mas é ferida que demora a sarar. É a hora que os grilos cantam no terreno da frente, ainda sem prédio construído e é a hora dos gatos brincarem na sala, derrubando tudo e escalando cortinas (eu fico imaginando trancada no quarto). 

É hora que eu fico pensando o quanto é difícil diminuir essa lista de expectativas, até porque a gente cresceu na cultura do: tudoaomesmotempoagora ou do, "seu primo passou num concurso ótimo, casou, viajou pra Europa e teve dois filhos lindos". Se você quebra uma pequena parte dessas regras, já está fora da linha e pasmem... a pior cobrança não é daquela tia ou amiga que comenta o fato (pra não dizer que fala da vida dos outros) e sim a nossa própria, porque no fundo... a gente até queria isso tudo mesmo, sem nem saber o motivo. Essa que a gente faz em silêncio quando passa mais de 1h seguida com o dedo já duro de tanto passar o feed do Instagram vendo a Camila Coutinho numa viagem incrível em Bermudas, o seu ex seguindo o baile sem você e Nathalia Arcuri com seus mais de 2 milhões investidos quando você ainda está tentando finalizar suas dívidas antes que termine o ano. 

Nesses meus desabafos, com amigos, família, desconhecidos, Deus e minha psicóloga cheguei a conclusão de que precisamos, definitivamente, aprender a baixar nossas expectativas. Ao mesmo tempo equilibrar-se entre uma lista de metas a longo prazo que incluem a compra de uma casa e um projeto que mude uma pequena parte do mundo (e do seu mundo). Ao mesmo tempo em que a gente tem que aceitar que é ser humano com todas as suas fragilidades que nos fazem querer ser Maria, como as outras, e sim, subir num altar com uma pessoa especial a qual você possa passar o resto da vida dividindo os sonhos e problemas. Ao tempo em que... ah, é difícil mesmo. Vamos tentar ser firmes pra entender que não tá fácil pra ninguém não. Nem pra Camila, nem pro ex, nem pra Nathi. Não tá pra mim também. Mas a lista, é melhor diminuir logo.  

Comentários

  1. Que lindo 😥 Vamos aguentar firme. Um pé na frente do outro, deixar o fluxo da vida seguir. Seu texto é sensível e gostoso de ler. Assim como vc. 😘

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  2. Lindo texto. As minha expectativas também estão aqui, me frustrando e atormentando minha frequência cardíaca e assim a gente segue o caminho, frustrada mesmo. Meditando e tentando mais uma vez todo dia... Como quem arrasta um saco com os sonhos dentro para mais uma pequena superação ou para a frustração do dia. Você é grande.
    Namastê.

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  3. Sim, Bele, é tão importante não só baixar nosso padrão (esquizofrênico, no sentido de irreal mesmo) de expectativas, mas também nos comunicarmos sobre isso, dar nossos "testemunhos", compartilhar. Porque se somos nós que sustentamos esse modelo louco de viver, somos nós também que podemos construir outras formas possíveis. E você é uma pessoa que sabe disso tão bem, e que tá fazendo.

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